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  • Redação

A palavra “liturgia”

Antes de estudar o conceito é preciso conhecer a etimologia e os sentidos que foram dados a este termo.


1) Etimologia e uso no mundo grego


O termo “liturgia’ provém do grego clássico, leitourgia (da raiz lêit [lêos-laos]: povo, popular; e ergon: obra), da mesma forma que seus correlativos leitourgein e leitourgos, e era usado em sentido absoluto, sem necessidade de especificar o objeto, para indicar a origem ou o destino popular de uma ação ou de uma iniciativa, independentemente da maneira como esta era assumida. Com o tempo serviço popular perdeu seu caráter livre para transformar-se num serviço oneroso em favor da sociedade. “Liturgia” veio a designar um serviço público. Quando este serviço afetava o âmbito religioso, “liturgia” se referia ao culto oficial aos deuses. Em todos os casos, a palavra tinha um valor técnico.


2) Uso na Bíblia


O verbo leitourgeô e o substantivo leitourgia se encontram 100 e 400 vezes, respectivamente, na versão dos LXX, para designar o serviço dos sacerdotes e levitas no templo. A utilização de leitourgeô-lei tourgia, traduzindo algumas vezes shêrêt (cf. Nm 16,9) e outras vezes abhâd e abhôdâh, designa quase sempre o serviço cultual ao Deus verdadeiro, realizado no santuário pelos descendentes de Aarão e de Levi. Para o culto privado e para o culto de todo o povo os LXX utilizam as palavras latreia e doulia (adoração e honra). Nos textos gregos somente leitourgia tem o mesmo sentido cultual levítico (cf. Sb 18,21; Eclo 4,14; 7,29-30; 24,10 etc.).


Esta terminologia já supõe uma interpretação, distinguindo entre o serviço dos levitas e o culto que todo o povo devia prestar ao Senhor (cf. Ex 19,5; Dt 10,12). No entanto, a função cultual pertencia a todo o povo de Israel, embora fosse exercida de forma oficial e pública pelos sacerdotes e levitas.


No grego bíblico do Novo Testamento, leitourgia não aparece nunca como sinônimo de culto cristão, salvo na discutida passagem de At 13,2.


A palavra liturgia é utilizada com os seguintes sentidos no Novo Testamento:


a) Em sentido civil de serviço público oneroso, como no grego clássico (cf. Rm 13,6; 15,27; Fl 2,25.30; 2Cor 9,12; Hb 1,7.14).


b) Em sentido técnico do culto sacerdotal e levítico do Antigo Testamento (cf. Lc 1,23; Hb 8,2.6; 9,21; 10,11). A Carta aos Hebreus aplica a Cristo, e somente a ele, esta terminologia para acentuar o valor do sacerdócio da Nova Aliança.


c) Em sentido de culto espiritual: São Paulo usa a palavra leitourgia para referir-se tanto ao ministério da evangelização quanto ao obséquio da fé dos que creram através de sua pregação (cf. Rm 15,16; Fl 2,17).


d) Em sentido de culto comunitário cristão: “Enquanto estavam celebrando o culto do Senhor (leitourgountôn) e jejuando, disse o Espírito Santo...” (cf. At 13,2). É o único texto do Novo Testamento em que a palavra “liturgia” pode ser tomada em sentido ritual ou celebrativo. A comunidade estava reunida orando e a oração desembocou no envio missionário de Paulo e de Barnabé mediante o gesto da imposição das mãos (cf. At 6,6).


Esta reserva no uso da palavra “liturgia” pelo Novo Testamento obedece à sua vinculação ao sacerdócio levítico, o qual perdeu sua razão de ser na nova aliança.


3) Evolução posterior


Nos primeiros escritores cristãos, de origem judeu-cristã, a palavra liturgia foi usada novamente no sentido do Antigo Testamento, mas já aplicada ao culto da Nova Aliança (cf. Didaqué 15,112; 1Clem 40,2.513).


Depois a palavra “liturgia” teve uma utilização muito desigual. Nas Igrejas orientais de língua grega leitourgia designa a celebração eucarística. Na Igreja latina a palavra “liturgia” foi ignorada, ao contrário do que ocorreu com outros termos religiosos de origem grega que foram latinizados. Em lugar de liturgia foram usadas expressões como munus, officium, ministerium, opus etc. Não obstante, Santo Agostinho a empregou para referir-se ao ministério cultual, identificando-a com latreia: ministerium vel servitium religionis, quae graece liturgia vel latria dicitur.


A partir do século XVI a palavra “liturgia” aparece nos títulos de alguns livros dedicados à história e à explicação dos ritos da Igreja. Mas, junto com este significado, o termo “liturgia” se tornou sinônimo de ritual e de cerimônia. Na linguagem eclesiástica a palavra liturgia começou a aparecer em meados do século XIX, quando o Movimento litúrgico a tornou de uso corrente.

 

Sobre a obra:


Julián López Martín


Esta obra traz uma síntese do conhecimento litúrgico atual com base na visão teológica e pastoral dos ensinamentos do Concílio Vaticano II e a contribuição da segunda parte do Catecismo da Igreja Católica. O trabalho também responde à Instrução sobre a formação litúrgica nos Seminários da Congregação para a Educação Católica (03/06/1979), sobre a abordagem, propósitos e conteúdos do ensino da liturgia. O livro é estruturado em cinco partes, seguindo um capítulo introdutório sobre a formação litúrgica. A primeira parte estuda o fato litúrgico na economia da salvação e na história. A segunda parte, a celebração, com todos os seus componentes. A terceira, a Eucaristia, os sacramentos e os sacramentais. A quarta trata da santificação das horas. E a quinta trata da espiritualidade litúrgica e sua relação com outros aspectos da vida da Igreja.

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