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Domingo de Páscoa: “Uma luz raiou para os que habitam uma terra sombria”

Na Noite Santa, na qual a Igreja celebra a Vigília Pascal, a liturgia desdobra-se em quatro partes e através dos ritos, que harmonizam beleza e sobriedade, ensinam com eloquência e didática o sentido da celebração. A primeira parte introduz os fiéis no mistério celebrado e os fazem experimentar e participarem da Páscoa do Senhor. Esse momento é a Benção do fogo novo e a preparação do Círio; as luzes da igreja estão apagadas e a escuridão envolve a todos.

Depois de abençoar o fogo novo e fazer as inscrições no Círio, o padre acende-o dizendo: “A luz do Cristo que ressuscita resplandecente dissipe as trevas de nosso coração e nossa mente”. Depois, por três vezes, o diácono ou o próprio padre, ergue três vezes o círio, enquanto adentra na igreja e canta: “Eis a luz de Cristo”.


Aos poucos se forma uma procissão, que caminha atrás do Círio, símbolo do Ressuscitado, aquele que dá vida e luz a toda a criação. Paulatinamente a luz vai dissipando as trevas da igreja, principalmente após o ministro dizer: “Eis a luz de Cristo” pela segunda vez, pois neste momento as rubricas prescrevem que todos devem acender suas velas no Círio Pascal.


Essa é a descrição do rito, claro, mas segundo Byung-Chul Han, filósofo e teólogo coreano, “rituais são ações simbólicas. Transmitem e representam todos os valores e ordenamentos que portam uma comunidade” (2021). Percebe-se, portanto, que as palavras e os gestos da ação ritual calham na vida das pessoas. O acendimento do Círio e sua entrada gradual no templo incide algo na vida dos fiéis ali reunidos.


Isaías no primeiro versículo do capítulo nove diz: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitam uma terra sombria”. A experiência da Páscoa, ou seja, a experiência da Ressureição é ser iluminado por essa vida que brota do Evangelho, vida que Jesus doa a todos sem distinção, pois ele mesmo diz: “Eu vim para que tenham vida e a e a tenham em abundância” (Jo 10,10).


“Uma luz raiou para os que habitam uma terra sombria” A experiência da ressureição não é só individual, mas é também comunitária; a luz do Cristo ilumina tudo e pode nos ajudar a caminhar rumo a uma sociedade mais justa e fraterna, respeitando os direitos e a dignidade de todos. Segundo Jean-Yves Leloup: “O sinal de que nossa experiência de luz é verdadeira é que ela nos permite descobrir nossa sombra.”


Assim, a experiência de ressurreição será verdadeira quando, juntas, as pessoas forem capazes de reconhecer as intempéries da sociedade, suas mazelas, sua crueldade e brutalidade, às vezes estruturadas, pois como ensina o papa Francisco “é caridade acompanhar uma pessoa que sofre, mas é caridade também tudo o que se realiza para modificar as condições sociais que provocam o seu sofrimento” (Fratelli Tutti, nº 186).

 

Leonardo Henrique Agostinho, MSC

Religioso da Congregação dos Missionários do Sagrado Coração,

formado em Filosofia e estudante de Teologia, na PUC-SP.

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