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  • Redação

O Mistério Pascal: a Páscoa “iminente” sobre o mundo

Compreensão renovada


A teologia, por uma renovada e feliz comunhão com a Palavra de Deus e com a tradição viva dos Padres que a interpretou, retomou e aprofundou nestes anos a compreensão do mistério da Páscoa de Cristo na economia da salvação. O mesmo destaque veio emergindo – ora como estímulo, ora como resultado – na concepção e na experiência da liturgia, aparecida mais perspicazmente como a celebração na qual é reapresentada no sinal eficaz a ressurreição do Senhor.


Substancialmente, fazer teologia significa ler e compreender o sentido de Cristo, que morre e que ressurge, e ligar cada expressão e cada lógica da realidade com aquele evento. Realizar a liturgia, ainda na sua substância, quer dizer deixar-se incluir naquela morte e ressurreição, abrir a própria vida à caridade que um tal mistério tem significado, através dos gestos simbólicos que a manifestam e comunicam sua força.


Caráter histórico e escatológico da Páscoa


Se a teologia é a compreensão da Páscoa e a liturgia é seu memorial – isto é, se não existe um para além fora destes horizontes pascais – a razão deve ser encontrada no caráter último, ou – como se diz – escatológico, que a Páscoa ocupa no plano divino e no seu desenvolvimento. O mundo foi projetado para aquela morte e aquela ressurreição: é sua meta e o motivo ao mesmo tempo. E agora que chegou e aconteceu, nós estamos no fim dos tempos: não devemos esperar outro dom, uma ulterior manifestação de Deus, uma Palavra de acréscimo, uma graça a mais, que venha para preencher uma insuficiência e para entrar no cálculo.


Nós estamos agora – e antes já o estavam na fé e na esperança as épocas antes de nós – sob a presença “iminente” da Páscoa e de sua plenitude. Objetivamente ela não se repete, nem pode mais repetir-se. Depois da morte e da ressurreição não existe nem mais história para Jesus, e, sob um aspecto preciso e a ser definido com rigor, não existe nem mais história para a humanidade. Ou seja: não surgirá nela e em função dela, nem deve ser esperado, um acontecimento de maior alcance e eficácia. A história só é concebível como memória e acolhimento da Páscoa, como seu desenvolvimento e dilatação em nós, como testemunho e como forma de vida: ou em outras palavras, como epifania e ação no tempo – isto é, na concretude da existência humana – da novidade absoluta, única e eterna, da caridade pascal de Jesus e da resposta que lhe deu o Pai.


Com efeito, o valor da Páscoa – através das circunstâncias nas quais tomou corpo ou dos episódios de realização – coincide com o amor que Cristo a viveu e revelou. Se por acaso se renunciasse a ele, simplesmente a vida do Senhor não seria redentora e salvífica e não o seriam, em particular, a paixão e a morte na cruz.


Cristo ressuscitado: modelo da criação


O mundo “conclui-se” na cruz, porque lá existe o amor maior, realizado num homem, mas na medida de Deus. O único, o absoluto e que não se repete é precisamente este amor, em vista do qual e a partir do qual a humanidade foi criada. E lá existe aquele “sim” do Pai que é a ressurreição; existe a verdadeira criação, da qual a antiga, se assim se pode dizer, em certo modo, era só imagem. Deus cria “verdadeiramente” (tenhamos presente a relação tão sentida pelos Padres e pela liturgia entre a figura e a realidade, a sombra e a verdade) quando as criaturas surgem pelo amor de Cristo, quando são impressas sobre Ele ressuscitado dos mortos; por isso, pela Páscoa, por Jesus que ressuscita depois de ter-se transmitido e doado a Deus e ao homem, deve ser datada a criação; por isso, a humanidade do Senhor – que jamais deve ser separada do seu amor, deixando-a numa espécie de fisicidade –, é a obra-prima e o modelo de todas as criaturas.


Para além da recordação e da emoção


Se compreendermos o Mistério Pascal nos termos precedentes, e em relação a ele a nossa atual história – mas só na fé, não na física, ou na filosofia, ou nas ciências humanas, tudo isso é compreensível e oferece as componentes de um discurso sensato –, pode-se compreender a liturgia e, em particular, o ano sacro no qual se desenvolve. Sem a aguda e penetrante percepção deste caráter último de Cristo e deste significado de sua morte e ressurreição – que é simplesmente a redenção, a salvação do mundo, seu “fim” e o êxito de todas as intervenções de Deus – a liturgia perde sua propriedade cristã, sua “paradoxalidade” e surpresa específica, afastando-se sem razão ou na direção de uma pura recordação, também se de intensa emotividade e encanto, ou na direção de uma inapresentável repetitividade, que esvazia o próprio valor da cruz e de todos os mistérios do Senhor.


E também o Ano Litúrgico – se é permitido fazer um discurso diferente – seria radicalmente mal-entendido, pela queda nas mesmas e desviantes direções: devota contemplação de uma história do passado – como num rosário ou numa Via Crucis – ou renovar-se e repetir-se dos mistérios e dos sujeitos da reevocação. Na realidade, a liturgia, na variedade de suas expressões, não é só memória entendida como traço objetivo deixado pelo acontecimento ou como reassunção subjetiva; e não é repetição que multiplique e acrescente. É a presença irreversível do fato último, escatológico nos “sinais” e na liberdade do homem; isto é, na sua fé e na sua vida.


 

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