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O Sacramento do Matrimônio

De igual modo, o matrimônio cristão é expressão da sacramentalidade da graça na Igreja e, por conseguinte, um dos “sete sacramentos da nova aliança” (DH 1800; 1891). Por “matrimônio cristão” entende-se a comunidade por toda a vida, íntegra, exclusiva e pessoalmente eleita entre dois batizados, um único homem e uma única mulher, que reflete a aliança de Cristo com a sua Igreja, em virtude da qual o matrimônio se torna sinal eficaz da transmissão da graça santificante.

A dogmática considera o matrimônio cristão sob o aspecto formal da sacramentalidade e das características essenciais que dela derivam, como a indissolubilidade, a monogamia e a fecundidade, esta última associada à disposição de acolher e educar os filhos e de ser as primeiras testemunhas da fé para elas. A teologia moral ocupa- se do matrimônio segundo o ponto de vista da antropologia da sexualidade e da paternidade responsável. O direito canônico estuda o matrimônio sob a ótica da sua realização legítima, dos impedimentos matrimoniais etc. A teologia pastoral aborda-o, levada pelo desejo de promovê-lo e de favorecer o seu êxito, tendo em mente o desafio de levar a cabo uma pastoral para os fiéis divorciados, tanto para quem se voltou a casar como para quem não voltou, em consonância com isso. Contudo, o matrimônio também é tema do direito civil e das ciências humanas e sociais.


Na bula de união para os armênios do Concílio de Ferrara-Florença (1439), o matrimônio é descrito nas categorias da sacramentologia patrística e escolástica, seguindo Ef 5,32 como “sinal da união de Cristo e da Igreja” (DH 1327). Como, ao contrário do que acontece com os restantes sacramentos, a categoria do ministro humano do sacramento – ou seja, os próprios contraentes ou o sacerdote celebrante – dificilmente pode ser aplicada ao matrimônio, o concílio florentino limita-se a falar da causa eficiente do sacramento, que radica no “sim”, no consentimento dos contraentes. Na sua realidade sobrenatural intrínseca, o matrimônio inclui três bens:


1) O bonum prolis, o bem da prole, da descendência, ou seja, a aceitação dos filhos e a disposição para educá-los de tal forma que reconheçam a Deus e o sirvam;


2) O bonum fidei, ou seja, o bem da fidelidade recíproca, exclusiva e por toda a vida;


3) O bonum sacramenti, isto é, o bem da indissolubilidade e indestrutibilidade do vínculo sacramental, que tem um fundamento permanente na unidade indivisível entre Cristo e a Igreja, visibilizada pelo matrimônio.


Mesmo quando uma interrupção temporalmente limitada ou também ilimitada da comunidade física de vida, ou seja, a separação de “mesa e de leito”, se torna possível, “não é lícito contrair outro matrimônio, visto que o vínculo do matrimônio legitimamente contraído é perpétuo” (DH 1327). O vínculo matrimonial entre os dois cônjuges, indissolúvel em vida, corresponde, em certo sentido, ao selo (res et sacramentum) impresso no Batismo, na Confirmação e no Sacramento da Ordem.


A teologia atual vê o matrimônio especialmente num contexto eclesiológico. À luz de uma antropologia pessoal e comunicativa de maior amplitude, o Concílio Vaticano II descreve-o como um dos atos sacramentais fundamentais da Igreja:


"Finalmente, os cônjuges cristãos, em virtude do Sacramento do Matrimônio, pelo qual significam e participam o mistério de unidade e amor fecundo entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,32), ajudam-se mutuamente a santificar-se na vida conjugal e na procriação e educação da prole, e por isso possuem o seu próprio dom, dentro do povo de Deus, no seu estado e forma de vida (cf. 1Cor 7,7). De tal consórcio procede a família, em que nascem novos cidadãos da sociedade humana, que, por graça do Espírito Santo, ficam constituídos, pelo batismo, em filhos de Deus, que perpetuarão o povo de Deus através dos tempos. Nesta espécie de Igreja doméstica, os pais devem ser para os seus filhos os primeiros pregadores da fé, mediante a palavra e o exemplo, e devem fomentar a vocação própria de cada um, mas com um cuidado especial a vocação sagrada (LG 11)."

 

Matrimônio e família: modelo ultrapassado ou garantia de futuro?


Com o anúncio do Sínodo Extraordinário dos Bispos, assembleia ocorrida em 2014, o Papa Francisco voltou a colocar o tema Matrimônio e família no centro da atenção eclesial. Como se quisesse afirmar a orquestra em vista da preparação do encontro, o Cardeal Walter Kasper, a convite do papa, pronunciou, em fevereiro de 2014, diante do consistório de cardeais, um discurso muito comentado sobre o tema O evangelho da família. Este suscitou de imediato um debate bastante agitado.


Com o presente volume, intitulado Matrimônio e família, desejamos abordar o tema dessa discussão, expor os problemas sobre o matrimônio e a família no mundo atual, e contribuir para uma melhor e mais profunda compreensão da doutrina da Igreja sobre o assunto.


O organizador:


George Augustin é padre da Ordem dos Palotinos. De 1981 a 1984 trabalhou intensamente nas missões no norte da Índia. De 1985 a 1992 completou seus estudos de doutorado em Tübingen, com Walter Kasper, sobre a teologia de Wolfhart Pannenberg. Augustin também trabalhou em paróquia e com a pastoral sacerdotal na Alemanha. A partir de 1996 trabalhou na Faculdade de Filosofia-Teologia Vallendar. O foco de seu trabalho é o Kardinal Walter Kasper Institut, fundado em 2005. Em 2008 foi nomeado consultor do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Em 2017 foi nomeado pelo Papa Francisco como consultor da Congregação para o Clero.

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