• Redação

O segredo de Maria

Para encontrar a graça de Deus é preciso encontrar Maria

Por S. Luís Maria Grignion de Montfort


Tudo se reduz a encontrar o meio mais fácil para obter de Deus a graça necessária para tornar-se santo; e é isso que eu desejo (te) ensinar. E o que digo é que, para encontrar a graça divina, é preciso encontrar Maria.


Porque:


1º) Maria foi a única que encontrou a graça (diante) de Deus, por si e por cada pessoa em particular. Os patriarcas e os profetas, todos os santos da antiga lei não puderam encontrar essa graça.


2º) Foi ela que deu o ser e a vida ao Autor de toda graça, e por causa disso ela é chamada Mãe da Graça, Mater gratiae.


3º) Deus, o Pai, de quem todo dom perfeito e toda graça provêm como de sua fonte essencial, dando-lhe seu Filho, deu-lhe todas as suas graças; desse modo, como diz São Bernardo, a vontade de Deus é dada a ela nele e com Ele.


4º) Deus a escolheu como tesoureira, ecônoma e dispensadora de todas as graças, de modo que todas as suas graças e todos os seus dons passem por suas mãos; e de acordo com o poder que ela recebeu, conforme São Bernardino, ela dá a quem ela quer, quando ela quer e quanto ela quer as graças do Pai Eterno, as virtudes de Jesus Cristo e os dons do Espírito Santo.


5º) Como, na ordem natural, um filho precisa de um pai e de uma mãe, assim também na ordem da graça é preciso que um verdadeiro filho da Igreja tenha Deus por Pai e Maria por Mãe; e se ele se gloria por ter Deus como Pai, mas não tem nenhuma ternura filial por Maria, trata-se de um enganador, cujo pai não é outro senão o demônio...


6º) Por ter Maria formado o Cabeça dos predestinados, que é Jesus Cristo, cabe a ela também formar os membros dessa Cabeça, que são os verdadeiros cristãos: pois uma mãe não forma uma cabeça sem os membros, nem os membros sem a cabeça. Aquele que quiser, portanto, ser membro de Jesus Cristo, cheio de graça e verdade, deve ser formado em Maria por meio da graça de Jesus Cristo, que reside nela plenamente, para ser comunicada plenamente aos verdadeiros membros de Jesus Cristo e a seus verdadeiros filhos.


7º) Tendo o Espírito Santo desposado Maria, e tendo produzido nela, por meio dela e a partir dela, essa obra-prima, o Verbo Encarnado, como Ele jamais a repudiou, Ele continua a produzir todos os dias nela e por ela, de uma maneira misteriosa, mas verdadeira, os predestinados.


8º) Maria recebeu de Deus um domínio particular sobre as almas para nutri-las e fazê-las crescer em Deus. Santo Agostinho chega a dizer que, neste mundo, os predestinados estão todos guardados dentro do seio de Maria, e que não vêm à luz senão quando essa boa mãe os faz nascer para a vida eter16 na. Consequentemente, como a criança obtém toda sua nutrição de sua mãe, que a dá proporcionalmente à sua fraqueza, igualmente os predestinados recebem toda sua nutrição espiritual e toda sua força de Maria.


9º) Foi a Maria que Deus Pai disse: In Jacob inhabita: minha filha, habite em Jacó; quer dizer, em meus predestinados representados por Jacó. Foi a Maria que Deus Filho disse: In Israel haereditare: minha querida mãe, seja herdeira de Israel; ou seja, entre os predestinados. Enfim, foi a Maria que o Espírito Santo disse: In electis meis mitte radices: lance, minha fiel esposa, raízes em meus eleitos. Todos, portanto, que são eleitos e predestinados, têm a Virgem Santíssima habitando neles – quer dizer, em sua alma – e a deixam lançar neles as raízes de uma profunda humildade, de uma ardente caridade e de todas as virtudes...


10º) Maria é chamada por Santo Agostinho – e de fato é – o mundo vivo de Deus, forma Dei; quer dizer que é apenas nela que Deus (feito) homem foi formado naturalmente, sem que lhe faltasse qualquer traço da divindade; e é também nela apenas que o ser humano pode ser formado em Deus naturalmente, na medida da capacidade da natureza humana, pela graça de Jesus Cristo. Um escultor pode fazer uma imagem ou um retrato natural de duas maneiras:


1ª) Servindo- se de sua habilidade, de sua força, de sua ciência e da qualidade de seus instrumentos para produzir essa figura da matéria dura e informe.


2ª) Ou pode utilizar um molde. A primeira é demorada e difícil, e sujeita a diversos riscos: basta um único golpe de formão ou de martelo dado de maneira errada para arruinar toda a obra. A segunda é rápida, fácil e suave, quase sem esforço e sem danos, desde que o molde seja perfeito e represente o natural, e desde que a matéria de que se serve seja fácil de manusear, sem opor nenhuma resistência à sua mão.


Maria é o grande molde de Deus, feito pelo Espírito Santo para formar ao natural um Homem Deus pela união hipostática, e para formar um homem Deus pela graça. Não falta a esse molde nenhum traço da divindade; quem quer que ali seja lançado e se deixa assim moldar, recebe todos os traços de Jesus Cristo, verdadeiro Deus, de uma maneira suave e proporcional à fragilidade humana, sem muita agonia ou muito trabalho; de maneira certa, sem temor de ilusão, pois o demônio não teve e nem terá jamais qualquer acesso a Maria, santa e imaculada, sem sombra da menor mancha de pecado.


Oh! Alma querida, quanta diferença existe entre uma alma formada em Jesus Cristo pelas vias ordinárias daqueles que, como escultores, confiam em seu conhecimento e se apoiam em suas habilidades, e uma alma fácil de modelar, bem-delineada, bem-fundida e que, sem apoiar-se em si mesma, lança-se em Maria e se deixa moldar nela por obra do Espírito Santo! Como a primeira é manchada, com defeitos, cheia de trevas e de ilusões, como é natural e humana; e como a segunda é pura, divina e semelhante a Jesus Cristo!


Não existe e jamais existirá uma criatura em que Deus seja maior, fora dele mesmo, do que na divina Maria, sem exceção nem dos bem-aventurados nem dos querubins, nem dos mais elevados serafins, mesmo no paraíso... Maria é o paraíso de Deus e seu mundo inefável, onde o Filho de Deus entrou para operar maravilhas, para guardá-lo e nele se comprazer. Ele fez um mundo, e é este daqui, para o homem viajante, e fez um mundo para o homem bem-aventurado, que é o paraíso; mas Ele fez ainda um mundo para si, ao qual deu o nome de Maria; mundo desconhecido a quase todos os mortais da terra e incompreensível a todos os anjos e os bem-aventurados que habitam os altos céus e que, na admiração de ver Deus tão elevado e tão distanciado deles todos, tão separado e de tal modo escondido em seu mundo, a divina Maria, bradam noite e dia: Santo, Santo, Santo!


Bendita e mil vezes bem-aventurada é a alma neste mundo a quem o Santo Espírito revela o segredo de Maria para que o conheça; e a quem Ele abre esse jardim secreto para que entre esta fonte selada para que daí tire e beba abundantemente das águas vivas da graça! Essa alma encontrará somente Deus, sem criatura, nesta criatura amável; mas [encontrará] Deus, ao mesmo tempo infinitamente santo e distinto, infinitamente condescendente e proporcional à sua fragilidade. Por estar em toda parte, Deus pode ser em toda parte encontrado, até mesmo nos infernos, mas não existe lugar onde a criatura possa encontrá-lo mais próximo dela e mais proporcional à sua fragilidade do que em Maria, pois foi para este efeito que Ele desceu até ela. Em todos os outros lugares Ele é o Pão dos fortes e dos anjos; mas, em Maria, Ele é o Pão das crianças...


Que não se imagine, portanto, como alguns falsos iluminados, que Maria, sendo criatura, seja um impedimento à união com o Criador, porque não é mais Maria quem vive, é Jesus Cristo, apenas, é Deus, apenas, que vive nela. Sua transformação em Deus é tão mais elevada do que a de São Paulo e dos outros santos quanto mais elevado é o céu em relação à terra. Maria fez-se inteiramente para Deus, e longe de reter uma alma consigo – ao contrário, a impulsiona e a une a Deus de maneira muito mais perfeita do que antes –, uniu-se a alma com ela. Maria é o eco admirável de Deus, que

sempre responde “Deus” quando alguém por ela clama, que glorifica apenas a Deus quando, com Santa Isabel, é chamada de bem-aventurada. Se os falsos iluminados, miseravelmente abusados pelo demônio, mesmo em oração, tivessem conseguido encontrar Maria, e por Maria, Jesus, e por Jesus, Deus, eles não teriam sofrido tão terríveis quedas. Quem uma vez encontra Maria, e por meio de Maria, Jesus, e por meio de Jesus, Deus Pai, encontrou todo bem, dizem as santas almas: Inventa (encontrada) etc. Quem diz o todo nada excetua: toda graça e toda amizade junto a Deus; toda segurança contra os inimigos de Deus; toda verdade contra a mentira; toda facilidade e toda vitória contra as dificuldades da salvação; toda doçura e toda alegria nas amarguras da vida.


Não quer dizer que aquele que encontrou Maria por uma verdadeira devoção esteja livre de cruzes e de sofrimentos, longe disso; essa alma será mais perseguida do que qualquer outra, porque Maria, a mãe dos viventes, dá a todos os seus filhos pedaços da Árvore da vida, que é a cruz de Cristo; mas, talhando-lhes boas cruzes, ela lhe dá a graça de carregá-las pacientemente e até com coração alegre; de modo que as cruzes que ela dá àqueles que lhe pertencem são como confeitos ou cruzes confeitadas, mais

do que amargas; ou, se durante um tempo eles sentem o amargor do cálice que é necessário beber para ser amigos de Deus, a consolação e a alegria que esta Mãe faz suceder à tristeza os anima infinitamente a carregar cruzes até mais pesadas e mais amargas.

Sobre a obra:


Neste opúsculo, Montfort traz algumas reflexões sobre como a consagração a Maria descrita na obra O Tratado da verdadeira devoção a Santíssima Virgem se concretiza na vida do cristão. Para Luís Maria Grignion de Montfort, o segredo para aqueles que procuram a santidade esta na postura de submissão que Maria assume diante de Deus, tornando-se escrava dele. Assim como Maria tornou-se escrava – e permanece nossa grande protetora junto a seu Filho –, também o cristão e convidado a consagrar-se como escravo incondicional de Maria para dela obter toda a graça.


Sobre o autor:


S. Luís Maria Grignion de Montfort nasceu na França no ano de 1673. Após os estudos de Filosofia e Teologia, foi ordenado sacerdote em 1700. Dedicou grande parte de sua atividade sacerdotal a difundir a devoção à Virgem Maria. Logo após seu falecimento em 1716, sua fama de santidade começa a se espalhar na França. Foi canonizado pelo Papa Pio XII em 1947. Escreveu diversos textos mariológicos, incluindo, além do Tratado da verdadeira devoção e O admirável segredo do Santíssimo Rosário.

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