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Ser gente: não somos nem deuses, nem anjos, nem demônios

Esta é a nossa graça, a grande graça de sermos homens ou mulheres, de sermos sempre, gloriosa e dolorosamente, criaturas. Aliás, escreveu o velho mestre mato-grossense Manoel de Barros, que “o maior apetite do homem é desejar ser”.



A pretensão de ser deus é fonte de dolorosas neuroses, quando deixamos de ser o que de fato somos para sonharmos e vivermos num patamar que nunca atingiremos. Esta pretensão, além de votada ao fracasso, manifesta uma supina soberba e uma doentia insegurança.


Pretender ser só espírito, abjurando as naturais pulsões instintivas e carnais que nos caracterizam, demonstra uma rejeição inamistosa e uma exibição narcisista nas relações interpessoais. A pessoa, ao apelar e se cobrir com a couraça e a máscara de uma impossível divindade, mente para si mesma e impede qualquer tipo de relacionamento normal com os outros.


Ser menor do que Deus não é nenhum desdouro. É uma feliz realidade. Somos todos infinitamente menores do que Deus. Esta é a verdade da nossa humanidade. Assim somos, e este é o nosso glorioso e penoso apanágio.


Deus, para nós, é horizonte que atrai, e não parceiro ou secretário de aventura. Ele, sim, pode fazer-se companheiro da caminhada humana, fato que, na verdade, já aconteceu, como graça, em Jesus Cristo, mas a criatura não pode exigir e querê-lo como servo submisso de sua pretensiosa aventura.


A aceitação feliz de nossa humanidade é a rocha viva e estável sobre a qual podemos fazer desabrochar e frutificar a beleza do nosso modo de ser. Querer ser mais do que isto seria pretensioso e mentiroso; querer ser menos seria trágico e frustrante. Sendo apenas gente é que podemos fazer florir o nosso jardim.

 

Saiba mais sobre a obra:

Este livro é muito mais do que uma cândida e penosa denúncia. É uma ampla e espiritual reflexão sobre o doloroso e gozoso mistério da vida que tem muitos jardins. Há os jardins do próprio eu, do coração, da graça de viver, da religião e da poesia. O poeta maior mato-grossense Manoel de Barros (1916-2014) esculpiu um pensamento redondo e irretocável: “Entender é parede. Procure ser árvore”. Na lousa de nossa parede, muitos escreveram como nossos pais, parentes, amigos e inimigos, vizinhos e estranhos, mestres e pedestres de mil estradas. Todo mundo deixou sua mensagem e seus conselhos. Alguns podem ter deixado grandes pontos de interrogação. Outros, no entanto, plantaram sementes para que nossa árvore frutificasse, dando sombra aos passantes cansados e uma copa acolhedora para os passarinhos. É olhando para nossa parede que podemos nos entender melhor, mas é sendo árvore que estamos no caminho de nossa realização pessoal, deixando de ser apenas uma interrogação ou uma opaca parede. Alegre-se muito e se encante com a beleza da vida que continua florindo.


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