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Mulheres que tocam o coração de Deus

Dedicamos todos os conteúdos dessa semana para celebrar o Dia Internacional da Mulher - comemorado em 08 de março. No texto abaixo, selecionamos três mulheres que, de formas distintas, mas significativas, tocam o coração de Deus. As histórias foram retiradas do livro Mulheres que tocam o coração de Deus, da autora Maria Cecilia Domezi, publicado pela Editora Vozes.

Confira:

Ana - Murmúrio sem palavras


Como aponta o relato bíblico de 1Sm 1,1–2,10, Ana é a mulher que se regozija no Deus da vida. Seu nome significa agraciada, pois ela se tornou mãe por graça de Javé, que a livrou da esterilidade. Seu esposo Elcana tinha outra mulher, Fenena, com a qual tinha filhos, mas amava mais a Ana. Fenena provocava Ana e a insultava pelo fato da sua esterilidade, e passou a aproveitar-se da sua fertilidade para humilhá-la. Em sua dor, Ana chorava, deixava de se alimentar e se recolhia, pedindo a Deus que revertesse a sua condição, que lhe desse um filho. Elcana viu sua tristeza e lhe disse: “Por que choras? E por que não comes? E por que estás de coração triste? Eu não te sou melhor do que dez filhos?”. Mas Ana queria reverter a própria condição. Pedia a Javé que a tirasse daquela humilhação. Ela era mulher de ousadia e desprendimento. Embora naquele tempo uma mulher por si mesma não pudesse ter acesso ao divino, ela tomou a iniciativa de apresentar-se diretamente a Deus para lhe pedir um filho. Além disso, fez um voto de que ele se dedicaria inteiramente ao serviço religioso. Fez isso sozinha, mesmo sem consultar Elcana, que era um israelita praticante da lei. Assim, ela ultrapassou a regra de que uma mulher só poderia fazer um voto se houvesse sansão do homem; o pai, no caso da mulher solteira, e o marido, no caso da mulher casada. Ana continuou em oração e o sacerdote Eli a observava. Seus lábios se moviam num murmúrio, mas não dava para ouvir suas palavras. Ela derramava seu coração diante do Criador. Eli, pensando que ela estivesse embriagada, repreendeu-a, mas ela se justificou. Não havia bebido; em sua tristeza e aflição, apenas se desafogava diante de Javé. “Vá em paz”, disse-lhe o sacerdote. “Que o Deus de Israel conceda o que você lhe pediu”. Cheia de esperança, Ana foi embora e se alimentou. Deus atendeu à sua súplica. Ela deu à luz Samuel. Assim que desmamou o menino, Ana cumpriu sua promessa. E enquanto ele crescia diante do santuário, Deus concedeu a Ana e Elcana mais três filhos e duas filhas. Samuel tornou-se sacerdote, profeta e juiz do antigo Povo de Deus. Em seguida a esse relato, a Bíblia traz a Oração de Ana (1Sm 2,1-10), que diz: “Em Deus me sinto cheia de força!” Essa oração influenciou a literatura cristã. O Cântico de Maria (Magnificat), que está no Evangelho de Lucas (1,40-55) tem muitas semelhanças com o Cântico de Ana.


Sulamita - O caminho do amor


Na Bíblia, o livro Cântico dos Cânticos traz uma coleção de canções populares sobre o amor. Foi escrito logo após o exílio dos judeus na Babilônia. A terra deles estava devastada, Jerusalém e o templo destruídos. O novo começo da vida do povo seria o amor do casal, pois o amor é uma faísca da própria vida de Deus. No entanto, a sustentação da grande família e da identidade judaica passavam para a mãe. É a partir da casa da mãe e na direção dela que se desenvolve o caminho do amor da camponesa morena Sulamita, noiva de um pastor de ovelhas. Mas ela é levada pelo cortejo do Rei Salomão e se vê no palácio, no meio das mulheres do rei. Este insiste em seduzi-la, mas ela resiste, fiel ao seu amado. Para as outras moças, as filhas de Jerusalém, conta que seus irmãos se voltaram contra ela. Mandaram-na guardar as vinhas, e ela não pode guardar a sua própria. Um dia, ela ouve os passos do amado e, através das grades do jardim do palácio, consegue conversar um momento com ele. Ela canta para ele uma canção do campo e depois, com medo de que o rei os encontre e os castigue, pede que ele vá embora. Uma noite acorda angustiada, sai, percorre a cidade à sua procura. Diz: “Encontrei o amado da minha alma. Agarrei-o e não vou soltá-lo, até levá-lo à casa da minha mãe” (Ct 3,4). Mas os encontros apaixonados dos noivos se alternam com as tentativas de sedução do rei. Certa vez, dormindo no palácio, ela ouve a voz do noivo e percebe que ele mexe na fechadura da porta. O coração estremece. Ela se levanta para abrir, mas o amado fugiu dos guardas. Ela sai à procura dele e o chama, mas os guardas vão atrás dela, batem até feri-la e arrancam o véu que lhe cobre o rosto. Ela volta chorando ao seu aposento e suplica às filhas de Jerusalém: “Se encontrarem o meu amado... digam que estou doente de amor!” (Ct 5,8). Ela faz poema para o seu amado e para ele dedica a sua dança. O rei acaba dando ordens para libertá-la. Ela sai atrás do noivo enquanto o coro canta: “Quem é essa que sobe do deserto apoiada em seu amado?” (Ct 8,5). Porém, a revolução do amor não está completa. O noivo ainda tem que fugir. E ela está sempre à sua busca, assim como o povo tem que viver buscando sempre o seu Deus amado. Sulamita é a mulher-paz, que em seu ser mais profundo incorpora a vida do Povo de Deus. É também a mulher forte, que tem a beleza da sabedoria.


Lídia - Trabalhadora e apóstola


Como lemos em At 16,11-55, Lídia era artesã e comerciante. Era de Tiatira, mas vivia em Filipos. Vendia tecidos de púrpura que comprava em Tiatira, feitos de uma púrpura mais barata por ser extraída não de molusco, mas de uma planta. Já se havia convertido ao judaísmo, e ouvindo os ensinamentos do Apóstolo Paulo e de seu companheiro Silas, tornou-se cristã. E como ela era líder das mulheres que frequentavam a casa de oração, muitas mulheres seguiram seu exemplo. Debaixo do poder romano que dominava aquela sociedade, as mulheres eram mantidas na submissão aos homens, sem voz nem vez. Mas era diferente nas comunidades cristãs, onde se vivia fraternalmente, sem discriminações. Assim, Lídia disponibilizou sua própria casa para os cristãos se reunirem. Foi a primeira comunidade cristã na região da Macedônia. Ela administrava a comunidade, protegia seus membros, punha seus bens materiais à disposição. Muitas vezes era ela própria quem dirigia a comunidade, mas também outros dirigiam, pois ela viajava bastante a trabalho. Além de tudo isso, ela oferecia hospitalidade e proteção política aos irmãos de fé que vinham de outros lugares. É importante lembrar que os apóstolos e missionários cristãos sofriam perseguição. Por isso, ela fazia Paulo e Silas ficarem em sua casa. Certa vez, os dois foram julgados e condenados pelas autoridades da cidade porque Paulo desmascarou um tal de “espírito adivinho” nos oráculos de uma jovem. Além de marginalizada por ser mulher e por ser gentil, aquela jovem era escrava e, com seus oráculos, rendia muito dinheiro aos patrões que a exploravam. Paulo e Silas foram despidos, amarrados, açoitados e presos, acusados de subverter os costumes romanos. Quando saíram da prisão, os dois foram à casa de Lídia. Foi grande a contribuição de Lídia para a evangelização dos chamados gentios ou pagãos, bem como para a expansão das comunidades cristãs no meio deles. Ela foi a grande colaboradora de Paulo apóstolo. Era mulher de liderança, trabalhadora e mestra, e se foi tornando uma verdadeira apóstola. Ao mesmo tempo, ela ajudou a sustentar as relações fraternas e igualitárias entre as pessoas cristãs. Ao seu redor, muitas mulheres, inclusive escravas, sentiram-se acolhidas, respeitadas e reconhecidas em sua dignidade.

Sobre a obra:


Com sensibilidade, as paginas desta obra oferecem um convite a orar no feminino, com a inspiração do testemunho de diversas mulheres. Na maior parte são mulheres historicamente situadas. Algumas delas, que constam em textos bíblicos, são reais nas aspirações e na caminhada das mulheres do povo de Deus. Em diferentes épocas, por dentro de diversas culturas e de múltiplas maneiras, elas viveram um amor operante pelo próximo, pela humanidade, pelo bem de todas as criaturas. Amaram aos outros mais do que a si mesmas. Por isso tocaram o coração de Deus, eterna e infinitamente apaixonado por todos os seres, por Ele criados, remidos, curados, libertados e glorificados.


Sobre a autora:


Maria Cecilia Domezi é paulista do interior e neta de imigrantes italianos. Como membro ativo do laicato católico, traz uma experiência de duas décadas de inserção e serviço pastoral junto às Comunidades Eclesiais de Base. É teóloga, doutora em Ciência da Religião, professora de História do Cristianismo e das Religiões. Atualmente leciona História da Igreja no Instituto São Paulo de Teologia e é membro do Observatório Eclesial Brasil. Em seus escritos tem destacado a mulher, focando especialmente a América Latina. Um de seus livros publicados, Mulheres do Concílio Vaticano II, faz parte da coleção Marco Conciliar, da editora Paulus.


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