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  • Redação

O ciclo do amor

Laurence Freeman


Uma das muitas coisas fascinantes que descobrimos sobre a meditação quando tentamos comunicá-la aos outros é que sua ideia essencial é extremamente atraente às pessoas. Porém, explicar o que é esta ideia essencial não é fácil. Alguém poderia dizer que consiste na compreensão da existência de uma identidade verdadeira, real e amorosa do eu em cada pessoa. Ainda que este eu não seja conhecido para a pessoa ou para seus amigos mais íntimos, a sua existência é intuída. E embora a referência a ele possa incorrer algumas vezes em uma reação agressiva, em geral a meditação afirma tranquilamente sua existência e potencial.


A meditação parece evocar uma reação profunda enquanto pareça ser ao mesmo tempo um ensinamento incômodo de ouvir. Como pessoas modernas, somos sujeitos da experiência, o que significa que queremos saber por nós mesmos e sermos capazes

de verificar cada reivindicação em nossa experiência própria. Sem dúvida isto é, em parte, o porquê de a meditação ser geralmente atraente, pois é puramente experiencial. É pessoal, pede por envolvimento completo de si e é direta, dispensando todas as formas de mediação. Não importa quantos livros sobre o assunto tenha lido ou quantas palestras tenha escutado. Quando a meditação é seriamente assumida, é você que tem que fazê-la, pois trata-se da sua experiência. Com o tempo, começamos a perceber que uma experiência puramente pessoal está também relacionada com os outros. Mas, a princípio, é profundamente atraente, pois é certamente sentido que esta experiência pessoal é essencial para o caminho da verdade. Ainda assim, é tão desafiadora quanto atraente. É desafiadora por causa do tipo de experiência pessoal que a meditação convida e envolve. John Main abriu o caminho para a compreensão deste aspecto da meditação dizendo que, quando meditamos, não tentamos experienciar a experiência. Quando meditamos, nós adentramos na experiência em si mesma. Como pessoas modernas e autorreflexivas, interessadas na variedade de experiências, somos precondicionados a nos interessar em experienciar a experiência. Queremos ser capazes de lembrarmo-nos dela, escrever e falar sobre ela, compará-la e comunicá-la.


Mas no momento da meditação em si mesmo, estamos desaprendendo esta aproximação apreensiva e controladora do ego. Não há nem análise da experiência e nem a tentativa de memorizá-la. Há somente a aprendizagem, sem dúvida vagarosa, mas não menos direta, permitindo o que é sê-lo de fato. O que quer que aconteça, diga o mantra. Diga-o até que não possa mais dizê-lo. Tão logo perceber que parou de dizê-lo, recomece a dizê-lo. Aqui está a fórmula, absolutamente simples e prática, que pode levar qualquer pessoa sincera e séria à experiência em si mesma que é a experiência do ser, o conhecimento de Deus. Como pessoas modernas, podemos perceber que isto é renovador e atraentemente simples, mas imediatamente tentamos contornar a situação. Uma das maneiras mais fáceis de tentar evitar a exigência de tal simplicidade é dizer em um tom de voz enfaticamente moderado e gentilmente razoável: “Bem, claro, diga o mantra, mas não o diga todo o tempo. Diga-o somente até que ele o leve a uma experiência e, quando estiver lá, relaxe e curta a experiência”. Mas a oração cristã é mais do que relaxamento. É paz, um estado de energia divinizadora, não para recarregar as baterias mentais. É mais do que aguçar o despertar da nossa consciência; é conhecer a mente de Cristo.


O que é tão desafiador sobre a meditação é o caminho pelo o qual ela nos conduz à experiência da não experiência. Isto é o que significa pobreza de espírito. Sempre queremos saber o que está acontecendo. Queremos saber o que irá acontecer. Este desejo por conhecimento é intrinsecamente possessivo. Mas se estamos verdadeiramente comprometidos com a peregrinação rumo à humanidade e assim verdadeiros discípulos do Espírito, então não estamos adquirindo experiência ou buscando enriquecimento através dela. Estamos adentrando na experiência da não experiência, aquela pobreza de espírito na qual nos alegramos com tudo pelo nada possuir.


A maravilhosa descoberta a ser feita por iniciarmos o seguimento deste caminho de fé é que a experiência da não experiência é a experiência mais importante de todas. É como o programa de base que permite que o computador comece a funcionar. O peregrino está buscando a simplicidade e esta é a experiência mais rica e gratificante da vida. Gradualmente, à medida que nos permitimos ser ensinados e encorajados, quando nos tornamos mais fiéis, percebemos que nesta experiência da não experiência, onde nada parece acontecer, de fato, algo muito real está acontecendo. Mas este encontro simples com a realidade, que é o poder-motor do crescimento, não está em nosso controle. É um dom. É o espírito. Como dom ou, como os mais antigos diriam, a graça, ela leva a uma pobreza sempre mais profunda, um abandono mais livre. É nisto que os meditantes estão envolvidos. É a jornada que todos nós estamos fazendo. Mas como podemos compreendê-la? É necessário compreendê-la porque em cada passo da jornada somos chamados a um compromisso mais profundo, e penso que somente podemos nos comprometer mais profundamente se compreendemos mais plenamente, para que uma consciência mais plena do que estamos fazendo nos leve adiante para fazê-lo com todo o coração.


Uma das maneiras na qual podemos compreendê-la é como John Main ligava a meditação à conversão do coração no Evangelho e ao processo essencial de crescimento pela transcendência. A maneira mais importante pela qual podemos compreender a experiência da não experiência é pela maneira como ela nos leva ao coração da teologia cristã, a percepção cristã central sobre sentido. Somente podemos compreender plenamente a jornada da oração pela analogia do amor humano.


Uma das situações humanas mais comuns e talvez a maior causa de sofrimento é a consciência de não ser amado. Podemos sentir que não somos amados ou não damos valor por ser quem somos, por inúmeras razões: nosso amor por outra pessoa não é correspondido, porque sentimos que essencialmente não somos capazes de sermos amados, somos indignos ou emocionalmente inadequados. Seja porque não estejamos conscientes de nossa verdadeira dignidade ou porque amamos sem uma reação complementar, a consciência de não ser amado é a causa de nosso sofrimento mais profundo. Faz-se necessário que vivamos cada dia lidando com um sentimento arraigado de não ser. Porque não nos sentimos amados tememos a não entidade. Aprendendo a viver mais do que contornar, o nível de sobrevivência envolve o descobrimento de como podemos reagir ao sentimento de expectativa de amor e a responder a ele não com a fuga, distração ou o adormecimento, mas verdadeiramente encará-lo e confrontá-lo. Como o ensinamento nos mostra como reagir?


O Evangelho diz: “Reaja com fidelidade e volte. Olhe para a outra direção”. “Continue amando”, diz o Evangelho, exatamente como o ensinamento sobre a meditação diz: “Continue dizendo o seu mantra”. Se continuar fiel em meio a esta dor, se continuar voltando apesar de não se sentir amado, então você crescerá para além deste sentimento e a dor da perda e da ausência se tornará a dor do crescimento. O sentimento de indignidade ou de incapacidade dará lugar a um autoconhecimento mais real de semelhança com o que é divino. E a dor do amor não correspondido alcançará uma dignidade sacrificial. Mas como crescemos? Como continuamos a nos voltar para a direção correta? Se o amor não completa o seu circuito e permanece descoberto, se não é recíproco, deve voltar a sua fonte. Mas então ele vai ao mais profundo do coração de onde emerge. Continua a descer cada vez mais profundamente até que chega à sua fonte. Nesse processo, buscando sua origem, o amor nos leva adiante no caminho do autoconhecimento e do autodescobrimento. Assim o nosso amor torna-se menos egoísta quanto mais profundamente ele volta e adquire intensidade mais forte e mais pura.


Na fidelidade ao processo de conversão iniciado pelo mantra, começamos a captar um dos grandes mistérios da meditação, que é também sua verdadeira prova. É que meditando fielmente tornamo-nos mais amorosos. Mas é uma jornada e, muitas vezes, teremos somente uma sensação de estarmos nadando contra a corrente da autorrejeição, do desespero ou concessão. Na oração há uma volta contínua em direção a nossa própria fonte até que o amor, que quer despontar para o mundo, atinja sua própria fonte no centro de nosso ser. Lá descobrimos que nossa própria capacidade e desejo de amor é um dom de Deus. Não importa o quanto despreparados, indignos ou não amados nos sintamos a partir daqui, nunca podemos nos desesperar. Porque, sabendo disso, o amor que sentimos e desejamos comunicar é uma qualidade divina; sabemos que tudo o que somos e sentimos está contido e conhecido pelo amor de Deus. O sinal de que somos amados por Deus prova, aos poucos, que somos infinitamente amados. Quando nosso amor alcança sua própria fonte, ele é reintegrado em si mesmo e torna-se capaz de expressar-se de maneira desprendida e com fidelidade. Esta é a experiência redentora. Sem ela, o cristianismo é somente uma ideia ou somente uma religião. A meditação revela o cristianismo como mais do que uma ideologia ou uma religião, mas como uma imitação e participação da natureza divina. Cristo é somente um outro nome quando falta a experiência de que a fonte do amor humano é Deus no coração humano. Somos plenos, somos todo amor por esta descoberta. Agora amamos com um poder que flui da certeza pessoal de sermos amados. Somente então somos capazes de comunicar a experiência de redenção para os outros, pois sabemos que é redenção e não nos envergonhamos de compartilhar este conhecimento que apaga todo medo de rejeição. Livres para amar, livres para sermos quem somos chamados a ser, percebemos que o mantra tem nos levado de volta para casa e a nossa casa é onde recomeçamos a cada dia.


A maravilha da descoberta do amor em nosso próprio centro é que esta força geradora de amor está contida em nossa humanidade, na sua mortalidade e em todas as limitações do corpo, da mente e da psique. Apesar da fragilidade, apesar de nossa inconsistência, dúvidas e todas as nossas falhas, o poder do amor é fiel a nós. Quanto mais voltamos a ele, mais somos capazes de comunicá-lo e encontramos a realização do mistério do amor no ciclo completo. Exigindo sempre sua completude, esforçando-se sempre para ser doado, recebido e correspondido, a dinâmica tripartite do amor nos impulsiona para além da triste dualidade do egoísmo e sua incapacidade de transcendência para o terceiro, o outro. Como nossa experiência trabalha seu poder transformador, começa então a fazer todo sentido dizer que aquele que ama vive em Deus e está sendo conformado à natureza da divindade.


Portanto Deus, que disse: “Do meio das trevas

brilhe a luz!”, foi Ele mesmo quem reluziu em nossos

corações, para fazer brilhar o conhecimento da

glória de Deus, que resplandece na face de Cristo.

Trazemos, porém, este tesouro em vasos de argila,

para que este incomparável poder seja de Deus e

não nosso (2Cor 4,6-8).

 

Sobre a obra:


MEDITAÇÃO, DISCIPLINA E CAMINHO PARA A LIBERDADE.

É um caminho para viver o mistério da vida, seus sofrimentos e alegrias, na fé e no poder da fé que cura e eleva o ser humano para o amor de Deus e do próximo. [...] É fácil estabelecer-se para uma vida temporária, para menos do que seria a vida eterna, pois nos apegamos, captados pelo infinito. [...], mas o destino humano é a vida eterna. A eternidade é o perpétuo agora, e, assim como aprendemos a viver eternamente no momento presente, aprendemos a verdade sobre o amor que também é inteiramente presente. Amar é estar todo presente com uma intensidade e unidade que transcende a destruição do tempo.



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