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Os sete pecados capitais: a avareza

A palavra avareza, com raiz no latim avaritia-ae, significa “cobiça, desejo excessivo de bens”, “avidez por cobre ou o vil metal”. O avaro materializa sua ambição no ter e almeja ser bem-sucedido na conquista de propriedades privadas. Para ele, o sentido da propriedade privada não é seu uso, mas o sentimento de posse. O avaro é um atormentado pelo clamor perseverante de adquirir mais e mais. Sendo assim, cobiça poder, dinheiro, status, objetos variados. O avarento é excessivamente apegado a bens, pois seu medo é a proximidade da escassez do objeto. A fantasia psíquica que o atormenta é que tudo pode faltar. Assim, devota-se à compulsão de acumular.

É próprio do imaginário popular descrever tipos que “usam duas vezes o mesmo fósforo”, “subscrevem nas costas das páginas de papel utilizadas”, “consomem alimentos e remédios vencidos”, “utilizam a mesma receita médica aviada em anos anteriores”, “escondem o dinheiro embaixo do colchão”. Esse personagem é também chamado de “unha de fome”, “muquira”, “mesquinho”, “pão duro”, “mão de vaca”. E sobre ele se afirma que “não enfia a mão no bolso” ou tem “bolso cheio de escorpião”. O avaro é aquele que gosta de “levar vantagem em tudo”, na lógica da famosa “Lei do Gerson”108: aquele que engana, falsifica e mente na tentativa de lucrar com qualquer negócio. Os avarentos típicos são agiotas, especuladores e corruptos.


Curiosamente, a partir das expressões populares, podemos observar a imagem corporal que as pessoas fazem do avarento, tais como: ideia de ele ter um corpo pequeno – o acanhado; como se ele tivesse braços e mãos presas – o agarrado; suas mãos são fechadas – o munheca-de-samambaia; ele tem constipação intestinal – a prisão de ventre; e é desmazelado com a aparência – o sovina. O avarento confirma o seu modo existencial na falta de leveza, na rigidez corporal e no congelamento dos movimentos de afeto.


O avaro é o criador da usura e, portanto, do sistema financeiro: bancos, cartões de crédito e operações virtuais. O avaro associa-se, ainda, à síndrome de colecionador, pois é mestre da acumulação. Nada joga fora, num ritual obsessivo de guardar bugigangas. Guardando-as, os obsessivos ritualizam a preservação zelosa de seus afetos, seguros de que nada vão perder.

Sobre a obra:

Os sete pecados parecem ter inspirado a brincadeira popular de que “tudo o que é gostoso”, ou faz mal ou é pecado. Mas não se trata só disso.


Daí, o que nos importa destacar neste livro é a relação entre cada um dos sete pecados e o que Lacan nomeou de gozo – evidentemente, com base no canônico Além do princípio do prazer, de Freud. O gozo é aquilo que se obtém ao atravessar a barra que limita nossa liberdade, em face da dignidade do outro, dos outros. O autor deixa para incluir essa consideração no último capítulo. Embora “gozo” seja o termo popularmente usado para designar o orgasmo, em Lacan o gozo é aquilo que ultrapassa tanto os prazeres permitidos quanto aqueles os que algumas religiões e diferentes códigos culturais proíbem. Gozo é o que atravessa a barra da castração simbólica que limita nossos excessos. Claro que a menção à teoria lacaniana para abordar o cânone bíblico é extemporânea, mas ajuda a revelar o que sempre esteve ali – ou “aqui”. As perversões  flertam com o gozo – e, às vezes, chegam lá. O perverso se coloca em posição de exceção diante da barra que nos limita diante da dignidade e da liberdade do outro. A violência e os ódios, motivadores de outros pecados, também.


Faço menção às liberdades extra-acadêmicas a que William Castilho recorre como a de tomar depoimentos de amigos, correndo o risco de ser acusado de falta de rigor. Ora, estamos aqui no campo da moral, das práticas de linguagem e, também, da ideologia. É preciso arriscar. A forma de rigor mais absoluta que conhecemos, como todos sabem, é o rigor mortis. O texto que aqui se apresenta é muito vivo.


Maria Rita Kehl


Sobre o autor:

William Cesar Castilho Pereira, mineiro, estudou Psicologia e é doutor pela UFRJ. Psicólogo clínico, atuou por várias décadas como professor da PUC-Minas. Foi docente da Faculdade dos Jesuítas (Faje). Assessor em trabalhos comunitários e analista institucional. Assessor da Arquidiocese de Belo Horizonte e do Conselho Episcopal Latino-americano – Bogotá – Colômbia (Celam). Escreveu pela Editora Vozes: Dinâmica de grupos populares, Uma escola no fundo do quintal, Associação de pais e mestres, Nas trilhas do trabalho comunitário e social: teoria, método e prática, Formação religiosa em questão e Sofrimento psíquico dos presbíteros: dor institucional. Pela Editora Imago, escreveu: O adoecer psíquico do sub proletariado, e pela Editora Lutador: Análise institucional na vida religiosa consagrada.


E-mail: williamccastilho@uol.com.br

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