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  • Redação

Ouvindo a Palavra Viva de Deus



Ouvir a eterna e criativa Palavra Viva, tanto oculta quanto revelada na vida e nos ensinamentos de Jesus, é a primeira forma pela qual encontramos Jesus. O Evangelho de João começa assim:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. (Jo 1,1-5).

Essa passagem de João destaca uma verdade central sobre Jesus: de alguma forma, ele existia antes da criação, inspira os seres humanos e transcende o tempo e toda a criação. Esse tipo de palavra não se restringe a uma página, ela cria e age. João usa a palavra grega logos para captar esse sentido.

As minhas próprias palavras às vezes perdem o seu poder criativo. A palavra criativa de Deus contrasta com as muitas palavras que definem a nossa existência. A Palavra Viva nasce do eterno silêncio de Deus e é sobre essa palavra criativa que nasce do silêncio que queremos dar testemunho.


Antes do Verbo encarnar-se em seu ventre, Maria testemunhou a palavra de Deus. Em virtude do seu ouvir obediente, o Verbo fez-se carne nela. Ouvir é uma postura muito vulnerável. Maria era tão vulnerável, tão aberta e receptiva que era capaz de ouvir com todo o seu ser. Nada nela resistiu ao Verbo que a ela foi anunciado pelo anjo. Ela era “toda ouvidos” e Coração. Assim, a promessa poderia se cumprir nela muito além da sua própria compreensão e controle. “Então disse Maria: ‘Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra’” (Lc 1,38).


Ouvir é a principal atitude da pessoa que está aberta à vida e à palavra criativa de Deus. A oração é ouvir Deus, estar aberto e receptivo à influência de Deus. O verdadeiro ouvir tornou-se cada vez mais difícil nas igrejas e instituições, onde as pessoas permanecem armadas, com medo de expor seu lado mais frágil, ansiosas por serem reconhecidas como bem-sucedidas e brilhantes. Em nossa sociedade competitiva contemporânea, ouvir costuma ser uma forma de “examinar o outro”. É uma postura de defesa na qual realmente não permitimos que nada novo aconteça conosco. É uma forma suspeita de receber que nos faz questionar o que serve aos nossos fins e o que não serve. O salmista aconselha o combate a esse endurecimento do Coração:

Ele é nosso Deus; nós somos o povo de que Ele é o pastor, as ovelhas que as suas mãos conduzem. Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: Não vos torneis endurecidos como em Meribá, como no dia de Massá no deserto, onde vossos pais me provocaram e me tentaram, apesar de terem visto as minhas obras (Sl 95,7-9).

A palavra de Deus aqui é ouvir a voz do amor e não endurecer o seu Coração. Esse tipo de ouvir nos pede que modelemos nossa vida em Jesus e nos comprometamos a seguir a maneira de viver que Jesus descreveu.


Esse ouvir pressupõe uma vida de oração pessoal e a crença na atividade de Jesus no mundo de hoje como a Palavra Viva de Deus.


Ouvir a palavra encarnada da vida é o coração da fé cristã. Em Maria, vemos a forma mais pura desse ouvir. É por isso que ela é chamada de “bendita” por sua prima Isabel. É por meio da sua obediência ao Verbo que se tornou carne nela que ela se torna não apenas a mãe de Deus, mas também a mãe de todos os que creem. Nós que desejamos crer somos chamados para esse mesmo tipo de obediência. Ao ouvirmos a palavra fielmente, ela se torna carne em nós e vive entre nós.


Jesus, o Verbo Divino, está oculto na humanidade: nele, Deus tornou-se humano em meio a um povo fraco e oprimido, sob circunstâncias muito difíceis. Não havia nada de espetacular sobre a sua vida. Até mesmo quando observamos os milagres de Jesus, constatamos que Ele não curava nem revivia as pessoas para aparecer. Ele costumava até mesmo proibi-las de falar sobre isso. Foi odiado pelos governantes do país e submetido a uma morte vergonhosa entre dois criminosos. A sua ressurreição foi um evento oculto. Apenas os seus discípulos e algumas das mulheres e homens que o haviam conhecido intimamente antes da sua morte o viram como o Senhor ressuscitado. A sua vida, morte e ressurreição não pretendiam nos surpreender com o grande poder de Deus. Deus tornou-se um Deus humilde, escondido, quase invisível em forma corporal. E esse é o verdadeiro poder do Verbo.


Talvez você considere que a palavra de Deus seja uma exortação divina que vai surgir e mudar a sua vida. Mas o poder pleno da palavra não está na forma como você a aplica à sua vida após ouvi-la, mas como o seu poder transformador faz a sua obra divina em você enquanto ouve.

 

Sobre o livro:

Direção Espiritual


Henri Nouwen Michael J. Christensen Rebecca J. Laird


A prática da direção espiritual foi redescoberta nestes tempos de inquietude e solidão e no mercado há vários autores e títulos que ensinam uma espiritualidade acessível a todas as pessoas, com descrição da via espiritual e suas práticas na tradição cristã. O texto que o leitor tem em mãos, obra póstuma, apresenta os passos necessários para uma boa direção espiritual e responde às principais questões que as pessoas se fazem no caminho de fé.

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